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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013



Reflexões sobre o ensino da gramática nas escolas

Ana Débora Peixoto dos Santos Ramos.
(Graduanda do curso de Letras- UFRRJ – IM)


Resumo

       O presente artigo busca trazer uma reflexão sobre o ensino da gramática nas escolas, mas especificamente no que se refere ao 1º e 2º ano do ensino médio, baseada em pesquisas de campo e nos conceitos de alguns autores. Vem refletir sobre o entendimento do aluno do que é a gramática e contrapor com as visões dos autores sobre a temática.


Palavras-chave

Gramática – ensino de gramática – conceitos de gramática – análise de dados – pesquisa.


Introdução

              Muitas questões podem ser levantadas para análise quando o assunto a ser discutido é a gramática. Partindo-se do pressuposto de que o ensino da mesma na prática, em muitos casos, pode ser diferente da teoria, ou melhor, pode não alcançar o objetivo a que se destina. Inicialmente neste artigo, propõe-se uma reflexão na perspectiva da Linguística sobre o ensino de gramática e, em sequência, apresenta-se uma pesquisa realizada com alunos do 1º e 2º ano do ensino fundamental.
Com base nestas pesquisas e analisando-se os dados nelas contidos, veremos os contrapontos e os principais problemas encontrados para o ensino da gramática e, consequentemente, o caminho proposto por alguns autores de forma a alcançar o seu pleno objetivo. Toda a análise baseia-se nas visões dos seguintes autores: Luiz Carlos Travaglia, Mário Perini, Mattoso Câmara Júnior, José Carlos Azeredo e Dinah Callou.


1. Justificativa

            Tratando-se do ensino de gramática, pode-se dizer que o primeiro problema é de ordem conceitual. Geralmente há uma grande distância entre os conteúdos apresentados e cobrados na escola e a experiência real do uso da língua. Sempre se tem em mente os conceitos de língua padrão e gramática prescritiva ou normativa, porém, na prática existe um grande distanciamento entre elas e seu uso real na língua falada.
O segundo problema que se destaca é o da metodologia, e, esta resulta do recorte que se faz na própria gramática normativa, ao se elegerem os conteúdos a serem trabalhados na disciplina.


2. Metodologia

           Tendo como base pesquisas feitas com alunos do 1º e 2º ano do ensino médio, propõe-se uma análise comparativa e reflexiva sobre os pontos de vista dos alunos, e ao mesmo tempo, tomando os conceitos dos autores já citados acima (na introdução deste artigo), faz-se uma comparativa entre as respostas dos alunos com os conceitos e teorias sobre o assunto abordado, a saber, a gramática.
Foram levantadas as seguintes questões para análise: 1- O que você entende por concepção de gramática? / O que você entende por ensino de língua? / O que você entende por ensino de gramática? A partir das respostas dadas pelos alunos, far-se-á uma análise comparativa.


3. Análise de dados

              É sempre muito importante que se reveja nas escolas o conceito de gramática adotado. O mínimo esperado é que se saiba o que é gramática quando se propõe a ensiná-la ou ao menos a refletir sobre seu ensino. Como já dito previamente, o presente artigo tratará, basicamente, de duas problemáticas: a conceitual e a metodológica.
Segundo Luiz Carlos Travaglia (1997), em seu livro Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus, a gramática é concebida como
um manual com regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente. E é exatamente a forma como, a maioria dos alunos, definem o que vem a ser gramática, como se pode constatar na resposta da aluna Rafaela Ribeiro da Silva (2º ano), onde afirma que: (...) “são as regras”. José Carlos de Azeredo (2004) em seu livro: Fundamentos de Gramática Portuguesa [3ª edição], diz:
     (...)A mais radical defesa do ensino gramatical baseia-se na convicção de que um dos objetivos prioritários da escolarização formal é promover o domínio efetivo do padrão culto da língua mediante a explicitação das regras de seu funcionamento. Ou seja: por seu prestígio social e ampla aplicabilidade em um variado rol de situações sociais novas, o domínio desse padrão é conveniente ao exercício pleno da cidadania.

        A questão maior não está no fato de ensinar ou não gramática, a dúvida se dá na forma como deve ser ensinada, pois, para que o aluno se interesse pelo ensino da mesma, é importante que ele compreenda a importância da gramática na sua formação intelectual, e a sua utilidade na vida cotidiana e profissional.
[...] para a finalidade de alcançar a internalização de unidades linguísticas, construções, regras e princípios de uso da língua para que estejam à mão do usuário, quando deles necessitar para estabelecer a interação comunicativa em situações específicas. (TRAVAGLIA, 2002, p. 11)

      Também não se pode falar de gramática de forma isolada, ela vem, automaticamente, associada às atividades linguísticas. De acordo com Mário Perini, o estudo da gramática de uma língua não pode dispensar o estudo da teoria e da metodologia linguísticas. Segundo Traváglia (1997), neste caso, o falante faz uma reflexão sobre a língua que se diria automática, porque ele seleciona recursos linguísticos e os arranja em um trabalho de construção textual em que lança mão dos mecanismos linguísticos que domina sem um trabalho de explicitação dos mesmos. As atividades linguísticas são, pois, as atividades de construção e/ou reconstrução do texto que o aluno irá realizar para se comunicar. Pode-se, então, relacioná-las com a gramática de uso, pois ocorrem quando o usuário da língua utiliza de forma automática a
sua gramática internalizada, a gramática da língua que ele internalizou em sua história de vida.
O que se deve fazer então, no ensino da gramática, é a construção de um conhecimento sobre a própria língua. Desta forma, pode-se perguntar: Os conteúdos de gramática que se ministram nas escolas realmente contribuem para a aquisição da aprendizagem do aluno? É relevante esta compreensão, pois parte do suposto que os alunos são bombardeados por uma série de informações através dos vários meios de comunicação, como: jornais, revistas, sites, entre outros, e isto mostra que a língua está intimamente associada às ações humanas. Azeredo cita um trecho do Livro de Composição dos autores Olavo Bilac e Manoel Bomfim (1930): 
       O aluno pode perfeitamente estar senhor de todas as regras da gramática e não saber dizer o que pensa e o que sente. A gramática seca, abstrata e árida, com que se cansa o cérebro das crianças, não ensina a escrever. Ninguém cuida de lhe negar utilidade e valor: mas querer habituar o aluno ao manejo da língua só com o estudo da gramática e começar esse ensino pelas regras abstratas da lexicologia e da sintaxe é o mesmo que querer ensinar matemática só com o estudo da geometria analítica.

        Diante da afirmativa acima, pode-se dizer que o ensino de gramática nas escolas é, indiscutivelmente, útil e valorosa, porém, à que se rever a forma de como ela é trabalhada. Partindo desse pressuposto, é necessário, antes de mais nada, abrir uma discussão entre docentes e coordenadores para se chegar a um modo efetivamente proveitoso na ministração das aulas de gramática nas escolas. A questão conceitual de que a gramática está apresentada como um manual de regras para o bom uso da língua traz sempre uma perspectiva de valor de certo ou errado, e aí, entramos na questão de norma e variação da língua.
        No texto de Dinah Callou: O ensino de língua portuguesa e a norma padrão, a autora cita, a propósito de gramática, norma e variação, João Ubaldo Ribeiro, em artigo publicado em O Globo (11/08/85), intitulado Questões gramaticais, diz: A gramática é a mais perfeita das loucuras, sempre inacabada e perplexa, vítima eterna de si mesma e tendo de estar formulada – especialmente se se acredita que no princípio era o verbo. Estou, como já contei, estudando gramática e fico pasmo com os milagres de raciocínio empregados para enquadrar em linguagem “objetiva” os fatos da língua. Alguns convencem, outros não. Estes podem constituir esforços meritórios, mas se trata de explicações que a gente sente serem meras aproximações de algo no fundo inexprimível, irrotulável, inclassificável, impossível de compreender integralmente. Mas vou estudando, sou ignorante, há que aprender. Meu consolo é que muitas das coisas que me afligem devem afligir vocês também. Ou pelo menos coisas parecidas.
Nessa afirmação, o termo gramática, por si só ambíguo, seria equivalente às características de uma língua que nos são apresentadas em forma de regras e princípios que não se propõe a fornecer uma explicação mas antes, um modelo.


4. Conclusão

          Normalmente se diz que se ensina gramática para tornar os indivíduos capazes de conhecer o funcionamento da linguagem, e de falar e escrever bem. O ensino de gramática nas escolas é fato, portanto, entende-se que a formação do professor de língua portuguesa em qualquer nível, deva ser radicalmente modificada, passando a fundamentar-se no conhecimento, compreensão e interpretação das diferenças existentes na escola, a fim de que haja uma mudança de atitude do professor diante das condições socioculturais e linguísticas dos alunos.
               Sabe-se que mudanças são necessárias, porém nem sempre possíveis, mas o fato é que, quando se trata de ensino de gramática a discussão é ampla e abstrata. Ela deve ser vista no quadro mais amplo dos comportamentos sociais, sem desconsiderar o papel do prestígio e da correção linguística. Na obra de Olavo Bilac, citada por Azeredo (2004), também pode-se destacar, radicalmente, o seguinte:
Explicar gramática, sem vivenciá-la no texto ou na redação, equivale a ensinar a nadar fora da piscina(...).
             Portanto, como se pode verificar nas pesquisas feitas, é preciso um esforço para que o modo de como é feito o ensino de gramática seja revisto, reavaliado e reestruturado, fazendo com que os alunos possam se interessar pelo aprendizado. E assim, o estudo de gramática pode ser um instrumento para exercitar o raciocínio e a observação; pode dar a oportunidade de formular e testar hipóteses; e pode levar à descoberta de fatias dessa admirável e complexa estrutura que é a língua.

...Um pouquinho de Borges (muito pouquinho mesmo!!!!)

Poéticas da Leitura
       Não lemos apenas palavras escritas. Roupas, casas, cidades, pessoas, todo o tipo de coisas são lidas todos os dias. Ver Vídeo - Poema de Borges: “Las cosas” -

Leitor ó Escritor
Para cada texto, cada livro, há um leitor, quando não há, é como se os textos não existissem ou permanecessem vagando incompletos.
É o leitor que dá vida ao texto!
“O leitor ativo, através da leitura, dá vida ao texto” ( O leitor Fingido – Flávio Carneiro)
Alguns autores se preocupam com o leitor, outros não, mas o fato é: preocupando-se ou não, suas obras serão lidas, relidas, interpretadas, reescritas e até reinventadas.
Para Borges, o escritor deve ser verdadeiro apenas para a sua imaginação, no imaginário reside o infinito.
 “...o mundo do escritor são seus sonhos, sua imaginação”. (Borges em entrevista a Bella Jozef – Diálogos Oblíquos)                                            
“ Escrever um livro é reescrever todos os anteriores. Todos os livros são o mesmo livro, abomináveis como os espelhos, repetem a mesma palavra”
      Borges não costumava ler suas obras, ele dizia que depois de escrever tratava de esquecê-las. Ele também dizia que, ao escrever, não se preocupava se o leitor pertencia a uma maioria ou minoria, e que, portanto o êxito ou o fracasso literário são duas imposturas. Ninguém fracassa tanto ou tem tanto êxito quanto pensa!!!
“Os grandes escritores não premeditam as consequências de suas obras”. (Borges em entrevista a Bella Jozef – Diálogos Oblíquos)
“Quando escrevo, penso sobretudo no conto. Isto é, não penso nos resultados do que escrevi. (...)muitos críticos se apoderam de meus contos e os enriquecem consideravelmente, porque veem neles propósitos que eu não tinha”.  - Jorge Luis Borges


Teria muito mais pra trazer sobre esse gênio da literatura, mas hoje vou ficando por aqui!!!!! Espero que tenham gostado!!!

Por, Ana Débora Peixoto